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sexta-feira, 23 de abril de 2004

PÚBLICO: '«Mais do que nunca temos de estar atentos a este caso»'

Para a Amnistia Internacional, o "caso Vanunu" não terminou com a libertação do prisioneiro. Luís Galrão, activista do Grupo 19 da AI que acompanha o prisioneiro israelita há quase dez anos, diz que é agora altura de lutar pelo levantamento das restrições a que o antigo técnico da central nuclear de Dimona foi sujeito - e zelar pela sua segurança.

O grupo 19 da AI "adoptou" Vanunu e para além das várias campanhas, começou a tentar estabelecer contacto por carta: "Foi difícil nos primeiros anos... Israel tinha uma política de atrasar correspondência. Mas as cartas foram chegando e ele lá foi respondendo", conta Galrão. "Além disso, vinham censuradas: apareciam cortadas a x-acto, e via-se que antes uma palavra teria sido sublinhada com uma caneta fluorescente."

No início, conta o activista da AI, Vanunu questionava a utilidade da troca de correspondência com activistas de um país insignificante. "Houve uma altura em que ele não nos queria dar muita atenção por sermos um pequeno país da cauda da Europa, mas acabou por saber da nossa integração na Comunidade Europeia, não se tinha dado conta disso em 1986, e começou a achar que poderíamos ajudar", continua Luís Galrão.

A Amnistia continuava entretanto a fazer várias acções de apoio ao prisioneiro, muitas à porta da representação diplomática de Israel em Lisboa. "Acabámos por ter umas conversas engraçadas com os seguranças israelitas da embaixada, com quem discutimos o caso: um achava que ele devia estar preso, outro que devia ser libertado, o terceiro considerava que não devia falar, pois estava em serviço.

In PÚBLICO

PÚBLICO: 'Vanunu Pede Inspecções Internacionais à Central Nuclear Israelita'

O técnico da central nuclear de Dimona Mordechai Vanunu, que revelou ao "Sunday Times" segredos do poder atómico israelita, foi ontem libertado depois de 18 anos de prisão, 11 dos quais em regime de isolamento, por espionagem agravada.

Fazendo sinais de vitória ao sair da prisão de Ashkelon, Vanunu, 49 anos, pediu uma visita de inspectores nucleares internacionais a Dimona e voltou a expressar à sua oposição à posse de armas atómicas por parte do Estado hebraico. "Israel não necessita de armas nucleares, especialmente não agora num Médio Oriente sem armas nucleares", afirmou aos jornalistas presentes.

Referindo-se ao tratamento "cruel e bárbaro" que sofreu na prisão, Mordechai Vanunu afirmou ainda que "o Shin Beth, a Mossad, não me conseguiram quebrar, não me conseguiram enlouquecer.

In PÚBLICO

quinta-feira, 22 de abril de 2004

PÚBLICO: 'Mordechai Vanunu libertado depois de 18 anos de reclusão'

Mordechai Vanunu, o homem que revelou ao mundo os segredos nucleares de Israel, foi hoje libertado da prisão de Shikma, Askhelon (sul de Israel), depois de 18 anos de reclusão.

No decorrer de uma conferência de imprensa improvisada à saída do cárcere, e apesar de várias tentativas dos agentes que o rodeavam para interromper as suas declarações, Vanunu afirmou-se "orgulhoso e contente" por ter revelado os segredos nucleares de Israel e disse que o Estado hebreu "não precisa de armamento nuclear".

Estas são as primeiras declarações públicas de Mordechai Vanunu, depois de ter sido raptado em Roma pela Mossad (serviços secretos israelitas) e levado num cargueiro para a prisão em Israel. Até à manchete do "Sunday Times" de 5 de Outubro de 1986, pouco ou nada se sabia do poderio nuclear israelita. Telavive deu sempre respostas evasivas afirmando que não foi o primeiro produzir ogivas nucleares na região.

À saída da prisão Vanunu, que aparentava boa forma física, acenou e dirigiu-se ao grupo de apoiantes que o esperava no exterior da prisão. Prendeu-se nas grades de um portão e fez sinais de vitória com um ar triunfante.

Odiado pela maioria dos israelitas que o consideram um traidor, mas olhado no estrangeiro como um mártir da causa anti-nuclear, Vanunu foi brindado com flores por uns e apupos por outros. "Morte ao espião, morte a Vanunu", proclamava um cartaz enquanto um israelita gritava: "tu não és judeu! Tu não tens o direito de estar aqui!".

Vanunu, actualmente com 50 anos, converteu-se ao cristianismo na Austrália e mudou o nome para John Crossman. Falando quase sempre em inglês no decorrer de uma atribulada conversa com os jornalistas que o esperavam no exterior, Vanunu apelou ao Governo israelita para abrir o reactor nuclear de Dimona aos inspectores internacionais. "A minha mensagem ao mundo é: abram a central nuclear de Dimona às inspecções".

No meio de uma chuva de perguntas dos jornalistas, Vanunu garantiu que "não tem mais segredos" e que agora quer retomar a sua vida. O antigo técnico de supervisão do Instituto 2 do complexo de Dimona pretende ir para os Estados Unidos, mas Israel não o deve deixar sair do país, pelo menos a curto prazo. O diário israelita "Haaretz" não lhe vão dar passaporte e o seu telefone e comunicações na Internet serão vigiados.

No meio de vários apelos dos agentes que o rodeavam para interromper a conferência, Vanunu denunciou as condições em que estava detido na prisão de Shikma classificando-as como "crueis e bárbaras". "Sofri porque sou cristão, só porque sou cristão", afirmou.

"A todos os que me chamam de traidor, digo-lhes que estou orgulhoso e contente por ter feito o que fiz". Vanunu afirmou que quando sair da prisão quer ir à igreja de S. Jorge, situada na parte Este de Jerusalém, uma deslocação que significa uma violação das restrições impostas à sua liberdade de movimentos.

AFP, PUBLICO.PT
PÚBLICO.PT/Internacional 21-04-2004

As fotos da libertação

Vanunu libertado mas ainda sem liberdade!

No âmbito do trabalho desenvolvido pelo Grupo 19 ao longo dos últimos 8 anos em prol da libertação de Mordechai Vanunu, o grupo realizou uma vigília nas imediações da Embaixada de Israel em Lisboa, para comemorar a libertação de Mordechai Vanunu, 6413 dias depois de ter sido raptado a 30/09/1986.

Apesar do momento ser de regozijo, o trabalho do Grupo 19 continua, porquanto Israel retirou o passaporte a Vanunu e pretende impedi-lo de viajar para fora do país, o que constitui uma violação flagrante dos seus direitos mais fundamentais, não apenas porque já cumpriu a sentença a que foi condenado, como porque a justificação apresentada - ele poder revelar mais segredos - é absolutamente desprovida de sentido, dado que tudo o que pudesse saber já se encontra absolutamente desactualizado... há 18 anos!

Na realidade, Israel pretende evitar que ele revele pormenores sobre o rapto de que foi alvo em Itália, o seu julgamento secreto e outras graves irregularidades que embaraçam as autoridades.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

BBC: 'Israel libertará 'espião nuclear' após 18 anos'

Guila Flint de Tel Aviv

Mordechai Vanunu, conhecido como "o espião nuclear" em Israel, será libertado nesta quarta-feira, depois de 18 anos de prisão.

Apesar da libertação, o governo de Israel impôs uma série de restrições a Vanunu, como a impossibilidade de ter um passaporte e de se aproximar de aeroportos e portos ou de conversar com estrangeiros sem autorização.

"Mordechai Vanunu revelou segredos de Estado sobre a planta nuclear de Dimona. Ele ainda possui segredos de Estado, incluindo alguns que ele ainda não revelou", justificou o governo israelense em um comunicado.

Israel também afirmou que poderia ter imposto restrições mais duras e que a duração das medidas dependerá do seu comportamento.

Fotografias

Vanunu, de 49 anos, trabalhou como técnico no Centro de Pesquisas Nucleares de Dimona, de 1976 a 1985.

Durante o último ano de trabalho no local mais secreto do país, ele começou a fotografar as instalações e a registrar dados sobre as atividades realizadas em Dimona.

Em 1986, Vanunu entregou ao jornalista Peter Hounam, do jornal britânico The Sunday Times, as informações que havia colhido em Dimona.

No dia 5 de outubro do mesmo ano, o The Sunday Times publicou com grande destaque os segredos nucleares israelenses, quebrando, assim, o principal tabu de Israel, que vem mantendo, há dezenas de anos, uma política de ambigüidade em relação ao seu potencial nuclear.

Poucos dias depois da publicação, Vanunu foi preso pelos serviços de inteligência de Israel (Mossad) em Roma e levado a Israel.

Acusado de espionagem e traição, ele foi condenado a 18 anos de prisão, 11 deles passados em total isolamento, em prisão solitária.

Pacifistas

Para a maioria dos israelenses, Mordechai Vanunu é um traidor que causou um grande dano ao Estado. Para uma pequena minoria, de grupos pacifistas e organizações de direitos humanos, Vanunu é um herói, um idealista que prestou um grande serviço à sociedade israelense, revelando informações que o público tem o direito de saber.

Yael Lotan, escritora e jornalista israelense de 68 anos, faz parte dessa minoria. Lotan é uma das fundadoras do comitê pela libertação de Mordechai Vanunu e por um Oriente Médio livre de armas nucleares, biológicas e químicas.

Em uma conversa com a BBC Brasil, a escritora defendeu o "espião nuclear" e analisou a razão do tratamento severo que ele recebeu das autoridades israelenses.

"O que amedronta o poder em Israel não são os segredos de Vanunu, mas sim sua consciência", disse Lotan. "É sabido que o pior pesadelo daqueles que perderam a consciência é a pessoa que manteve a dela".

De acordo com Yael Lotan, "em todos os países que possuem armamentos nucleares (Estados Unidos, Rússia, China, Grã-Bretanha e França), o público foi informado da presença dessas armas, e só em Israel esse tema sempre foi mantido em segredo".

Lotan expressou sua preocupação com o potencial nuclear de Israel e disse que "as autoridades não forneceram as informações sobre as armas que
existem aqui, e essas armas são perigosas para nós, os cidadãos do país, para
nossos vizinhos e para o mundo inteiro".

Yael Lotan também expressou admiração por Vanunu, que ela considera um herói. "De todas as pessoas que trabalharam em Dimona, só Vanunu teve a coragem de publicar as informações. Para mim, ele é um herói, exatamente como o americano Daniel Ellsberg, que, no auge da guerra do Vietnã, revelou os documentos do Pentágono e assim contribuiu para por fim àquela guerra".

Lotan também manifestou sua revolta com a dura sentença à qual Vanunu foi condenado e disse que "Ellsberg não foi preso mesmo por um dia".

De acordo com a escritora, depois da libertação de Vanunu, o comitê vai continuar lutando "por um Oriente Médio livre de armas nucleares, químicas e biológicas".

Ehud Yatom, membro do parlamento pelo partido Likud e integrante da comissão parlamentar para assuntos de segurança, disse ao canal 2 da TV israelense que "Mordechai Vanunu é uma bomba-relógio que vai ameaçar a segurança do Estado de Israel quando sair da prisão".

"Vanunu sabe segredos que ainda não revelou e vai fazer uso da primeira oportunidade para revelá-los, pois ele é um traidor e sua meta é prejudicar os interesses de Israel", disse.

"Israel tem todo o direito de impor restrições à liberdade de Vanunu para proteger a segurança do Estado", acrescentou.

Segundo o cientista Uzi Even, da Universidade de Tel Aviv, Vanunu não pode, mesmo se quiser, ameaçar a seguranca de Israel, pois ele trabalhou em Dimona há 20 anos e desde então houve grandes mudanças e avanços tecnológicos.

Assim, segundo ele, as informações que Vanunu colheu há 20 anos já não são mais relevantes.

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2004/04/040420_guila.shtml

terça-feira, 2 de março de 2004

2004

As autoridades israelitas anunciaram que Mordechai Vanunu será libertado dia 21 de Abril, cerca de dois meses antes do final da pena.